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05/12/2018

O tabu da infertilidade: por que o problema é do homem, mesmo quando não parece ser?

Quantos homens você conhece que têm ou tiveram dificuldade para engravidar sua parceira? Ou melhor, quantos assumem passar por isso? Pouquíssimos, e o silêncio não reflete a realidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um em cada quatro casais de países em desenvolvimento são afetados pela infertilidade, número praticamente constante entre 1990 e 2012. Em todo o mundo, há mais de 50 milhões de pessoas com infertilidade, no Brasil, 8 milhões podem estar nessa situação.

Repare que não estamos falando de milhões de mulheres. Embora a ideia dominante seja de que o problema é quase sempre delas, especialistas garantem que em 40% dos casos os homens são responsáveis pela dificuldade de o casal gerar um filho, outros 40% correspondem a problemas unicamente femininos, e, nos demais 20%, os dois apresentam questões que impedem a gravidez ou não há razão aparente. Entenda as possíveis causas, os tratamentos convencionais e as novidades e descubra como manter sua saúde emocional durante esse processo.

Relógio biológico

Um casal é considerado infértil se a mulher de até 30 anos, sem utilizar contraceptivos, não engravidar no período de um ano. Caso já tenham sofrido pelo menos três abortos espontâneos, também entram no grupo. Até há pouco tempo acreditava-se que, no caso dos homens, a idade não interferia na fertilidade. Mas uma pesquisa apresentada ano passado mostrou que a idade do parceiro tem uma influência significativa no sucesso das fertilizações in vitro. “Com o tempo, tanto a quantidade quanto a qualidade do esperma sofrem alterações.

A mobilidade das células sexuais pode cair até 37% em homens de 50 anos”, diz outro estudo recente, de Harvard. Para piorar, um artigo publicado ano passado na revista Human Reproduction Update concluiu que, nos últimos 40 anos, a contagem de espermatozoides dos homens caiu mais de 50% nos países ocidentais.

Isso é problema seu?

Fica um alerta. Mesmo que o problema não seja seu (fisiologicamente), ele é seu. Sim, porque se a questão for com a sua parceira, vocês podem ter uma luta (às vezes inglória) pela frente. Se no caso dos homens investigar a fertilidade baseia-se em poucos e indolores exames – basicamente exame dos testículos, coleta de sangue e um espermograma –, para as mulheres a bateria pode ir de um simples exame de sangue hormonal à dolorida histerossalpingografia, que investiga as trompas de falópio.

Portanto, comece a averiguação por você. A análise do sêmen deve ser o primeiro teste laboratorial solicitado. Ele é feito através da ejaculação feita em laboratório em um recipiente de vidro, após um período de dois ou três dias de abstinência. O resultado trará um raio-x do esperma. Mais de 90% dos casos de infertilidade masculina são causados pela baixa contagem de espermatozoides, qualidade espermática inferior ou ambos. Feito isso, pode ser preciso analisar outras causas comuns para infertilidade masculina. São elas:

 Varicocele

Provoca a dilatação das veias que drenam o sangue dos testículos, devido a uma disfunção no sistema circulatório. A má circulação sanguínea provoca aumento na temperatura
da bolsa testicular e pode causar a diminuição do saco escrotal, comprometendo a qualidade do sêmen. Em geral, as varizes nos testículos (nome popular para a varicocele) ocorrem na adolescência, sem sintomas aparentes. Somente na fase adulta é que o homem percebe os danos causados pela doença. Isso explica o fato dela aparecer em 15% da população masculina e ser responsável por quase metade dos casos de infertilidade na fase adulta. Nos casos mais graves, a cirurgia é a mais indicada, principalmente para os pacientes que passam por tratamento de reprodução assistida.

Processos infecciosos

As mais conhecidas são a clamídia e a gonorreia, que comprometem diretamente
o sistema reprodutivo dos homens e são sexualmente transmitidas. Geralmente atingem a uretra e podem afetar também testículos e próstata. Dependendo do processo, um tratamento com antibióticos pode resolver.

Azoospermia

É a ausência de espermatozoide no sêmen, geralmente por causa genética. O mal acomete apenas 1% dos homens, mas cerca de 20% dos inférteis são azoospérmicos. As principais causas são falência dos testículos, ausência ou bloqueio dos vasos encarregados de levar os gametas masculinos ao meio externo.

Novidades no front

A azoospermia foi, por anos, um problema sem solução, mas há boas novas. Mauro Bibancos, especialista em reprodução humana e pesquisador associado da Universidade de Pádua, na Itália, trabalha com um tratamento ainda pouco conhecido no Brasil chamado microdissecção testicular. “Essa microcirurgia, nascida em Nova York no comecinho dos anos 2000, vasculha os testículos para ver se encontra algum espermatozoide vivo.

E, então, utiliza o gameta para fazer uma fertilização in vitro. Porque muitas vezes o espermatozoide até está vivo dentro do testículo, mas não chega com vida aqui fora. Com essa microcirurgia, ele é preservado nas melhores condições possíveis”, disse. Recentemente, pesquisadores japoneses têm ido mais longe e conseguido bons resultados com espermatozoides imaturos, em um desdobramento da microdissecção que acaba de chegar ao Brasil.

Outra novidade, dessa vez em termos de diagnóstico, é analisar a fragmentação do
DNA espermático. “Não adianta apenas analisar a quantidade e a velocidade dos gametas. É preciso que seu DNA não tenha muita fragmentação”, completa Edson Borges Junior, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. Isso porque os espermatozoides precisam se manter estáveis para passar dos testículos ao epidídimo e, então, aos ductos deferentes e à uretra, de onde são expelidos.

Equilíbrio emocional

Muitos homens cresceram ouvindo que a responsabilidade de “provedor” é toda deles. Desconstruir esse paradigma é muito difícil, e fazê-lo durante a luta contra a infertilidade, que pode levar anos, é ainda mais desafiador. Trata-se de uma sequência de frustrações e novas esperanças em espiral. Por isso, cuidar do equilíbrio emocional é tão importante. “Já ouvi muitas histórias de casais que se afastam depois de tratamento de fertilidade que não deu certo. Homem e mulher elaboram o luto de formas muito diferentes e se desencontram”, diz o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, que coordena um grupo terapêutico quinzenal voltado apenas para homens. Nesse momento, alerta o profissional, é preciso ficar atento a três agravantes: a falta de empatia, a chegada da depressão e a solidão. No primeiro caso, busque e ofereça apoio para a sua parceira. Não diga que seu sofrimento é exagerado nem diga frases de efeito, como “o tempo cura”. Se quem está baqueado é você, fique atento às emoções. “Depressão não é tristeza.

É ficar por 15 dias sentindo que você está perdendo energia para fazer as coisas que te fazem bem. É perda de vitalidade. Nesses casos, busque ajuda profissional ou de um amigo de confiança. O importante é não sofrer sozinho”, avisa. A solidão, aliás, piora tudo. “Quem não fala implode. A dificuldade de expressar os sentimentos é a raiz emocional de muitas doenças do homem”, diz Alexandre. O isolamento, é claro, tem uma razão de ser: o tabu. Sites como o Cadê meu Neném, que reúne histórias de casais tentantes e novidades médicas são ótimas opções para quem quer se informar e dividir suas aflições, mas, infelizmente, o engajamento ainda é majoritariamente feminino.

Com um empurrão

Para ajudar casais com problemas em engravidar, existem os Tratamentos de Reprodução Assistida (TRA).  Estima-se que, globalmente, 400 mil bebês nascem todos os anos de aproximadamente 1,6 milhão de ciclos de TRA.

 Inseminação artificial

O espermatozoide é colocado dentro do útero – pela relação sexual, teria que percorrer da vagina à trompa, passando pelo útero, um caminho bem maior para “nadar”. Ideal para espermatozoides com pouca mobilidade. Valor médio: R$ 5 mil.*

Fertilização in vitro

No laboratório, o médico coloca o sêmen em contato com o óvulo em um tubo de vidro, onde acontece a fecundação (em condições normais, ela ocorre na trompa). De 3 a 5 dias depois, o embrião é inserido no útero da mulher. Valor médio: R$ 20 mil.

Incompatíveis

Pode ser necessário consultar um imunologista, em vez de um especialista em reprodução. De forma simplista, o embrião é um corpo estranho ao útero e para que a gravidez aconteça, ele precisa ser reconhecido imunologicamente, para que não seja eliminado pelas defesas do organismo. O sistema imunológico está sempre “de prontidão” para atacar e destruir tudo o que não faz parte do nosso organismo – como uma bactéria ou uma célula tumoral. Normalmente, o embrião consegue “burlar” essa defesa, porém isso nem sempre acontece.

Quando o material genético da mulher e do homem é muito similar, o corpo não entende que precisa preservar esse corpo estranho. Essas pequenas alterações no sistema imunológico podem resultar em fracasso na implantação do embrião, logo, fracasso da tentativa de gestação. A boa notícia é que até para isso existe tratamento. A mulher recebe, em ambiente clínico, um medicamento intravenoso que atua no sistema imune. As aplicações duram cerca de duas horas e a dosagem e duração do tratamento varia de acordo com o nível de incompatibilidade.

Estilo de vida e exames

Se a saúde e a vaidade ainda não convenceram você a entrar em forma, talvez o desejo de ser pai convença. O estilo de  vida comprovadamente interfere na produção
de espermatozoides. “Homens obesos, por exemplo, têm 3 vezes mais chance de desenvolver azoospermia”, explica Edson Borges Junior. Ele ainda destaca que certos medicamentos prejudicam o funcionamento dos testículos, como antipsicóticos, antifúngicos e alguns antidepressivos.

Homens que produzem espermatozoide com fragmentação do DNA ou com baixa motilidade também podem se beneficiar da perda de peso e da diminuição de consumo de carne vermelha, adoçante e refrigerantes. “Além disso, suplementos como zinco, selênio, vitamina C, vitamina E e ácido fólico deixam o DNA
do espermatozoide mais estável”.

Futuro garantido

Se você pensa em ter filhos em um futuro distante, congelar seus gametas pode ser a solução. O procedimento é muito procurado por quem precisa fazer tratamentos invasivos, como a quimioterapia, e é o ideal para quem deseja ter uma “poupança”. Colher o material é simples como fazer um espermograma. “O processo custa cerca de R$ 1.500 e a manutenção sai em média por R$ 800 ao ano”, explica Edson Borges Junior. Seu caso de infertilidade não tem solução? Existem os bancos de sêmen, também procurados por casais homoafetivos que não desejam usar o gameta nem de um, nem de outro.

No caso dos bancos nacionais, é possível selecionar características físicas próximas às dos pais, como altura, peso e cor dos olhos. Já os internacionais – que você pode acionar a partir de clínicas de fertilidade brasileiras – oferecem muito mais informações, como profissão e habilidades musicais. Em alguns casos, pode-se até ouvir a voz do doador, ver sua foto quando criança e se deparar com perfis como “ele se parece com Jim Morrison”.

Raio x do esperma

A análise do sêmen é o primeiro teste laboratorial solicitado pelo médico ao homem. Ele é feito através da ejaculação feita em laboratório em um recipiente de vidro, após um período de dois ou três dias de abstinência. O resultado trará um raio X do esperma. Veja o que os exames podem detectar em uma amostra:

-Quantidade de espermatozoides no total ejaculado e por milímetro

-Espermatozoides que se movem apenas em uma direção

-Quantidade de espermatozoides que não se movem

-Espermatozoides que se movem, mas não se deslocam

-Cor, viscosidade, tempo de liquefação, ph e outras características da ejaculação

-Avaliação de formato e tamanho dos espermatozoides

-Contagem da quantidade de espermatozoides vivos