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ANÁLISE

Resultado de estudo é um alento diante da histeria com o zika

CLÁUDIA COLLUCCI
COLUNISTA DA FOLHA

16/03/2016 02h00

O artigo publicado na revista médica “Lancet” definindo o risco de microcefalia em casos de gestantes infectadas por zika é um alento diante da histeria coletiva que tomou conta do Brasil e do mundo.

Nos últimos meses, as sucessivas imagens dramáticas de bebês microcéfalos e as falas das autoridades pintavam um cenário apocalíptico, “uma geração de sequelados”, nas palavras do ministro da Saúde, Marcelo Castro.

Diante da perspectiva de gerarem bebês com inúmeras limitações, muitas mulheres têm recorrido ao aborto ilegal tão logo a zika é confirmada.

A decisão é tomada no escuro, sem confirmação da microcefalia, já que as alterações cerebrais só aparecem a partir do segundo ou terceiro trimestre de gestação.

Agora, com o novo dado, muitas das gestantes infectadas devem se perguntar: vale a pena eu abortar diante da chance de 1% de o meu bebê desenvolver microcefalia?

A comparação com a síndrome da rubéola congênita, que pode causar más-formações fetais entre 38% a 100% dos casos, também coloca as coisas sob outra perspectiva. Mas só em tese. O vírus da rubéola está oficialmente erradicado do continente americano, enquanto o da zika está se espalhando feito pólvora.

É bom reforçar que o estudo tem limitações, como não ter considerado outras possíveis complicações pelo zika, como calcificação e outras más-formações.

Os resultados também estão um pouco distante da realidade de Pernambuco, onde 2% do total de nascimentos resultaram em crianças com microcefalia. Mas isso não desacredita o trabalho polinésio.

Ao contrário, só reforça a hipótese de alguns de que possa existir um outro fator (genético, ambiental?), além do vírus da zika, associado a ao aumento das más-formações em Pernambuco e outros Estados do Nordeste.